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A linguagem em nossa evolução é o que nos distingue




O que distingue o ser humano de outras espécies?

 

Seria a inteligência? A superestimada “racionalidade”? Esses fatores são condições inegáveis para o desenvolvimento da criatividade de que dispomos.


No entanto, a habilidade singular cuja sofisticação traduz melhor toda evolução ao qual nossa espécie ascendeu dentre tantas outras se resume numa ação aparentemente simples: falar.


Comunicar é usar da linguagem para se expressar e interagir. Isso implica traduzir sentimentos, anseios, planejamentos, através de símbolos, letras que formam palavras ou gestos que representem os mesmo símbolos, mas sem o uso fonético do som emitido pela voz. Em suma, é usar da linguagem que flui em nossa interpessoalidade, em nossa introspecção, para nos expandirmos numa percepção mais abregente de nós mesmos ou para melhor compreensão do outro e mundo externo.


Falar é essencial para que o trabalho psicoterapêutico se movimente ao propósito da “cura” ou da maior autonomia, da melhor autoestima, da maturidade e inteligência emocional, das desconstruções paralisantes de ideias autodepreciativas, do arcabouço simbólico que se promove rumo à sofisticação da subjetividade perene e resiliente.


O processo de se autoconhecer exige a habilidade de nomear sentimentos; simbolizar percepções; relativizar impressões; aceitar fatos (vivências); (re)interpretar cenas (imagens), o que nos permite relembrar e decodificar sentidos nas reminiscências; descobrir fantasias, ou crenças e esquemas mentais; lidar com o real, dentre outros movimentos da subjetivação humana. Nossa intelectualidade.


Nota-se, falar não é um processo cognitivo qualquer. Sobretudo, falar de si mesmo(a) sob o olhar e ouvidos atentos de um bom profissional.


Cognitivamente, falar exige também inventividade, cujos efeitos proporcionam a aquisição do conhecimento, articulados nas trocas com os outros.


Escolher palavras, encontrar palavras, descobrir palavras, trocar as palavras (atos falhos), são efeitos de um processo sofisticado e demasiadamente humano.


Dentre tantas possibilidades de a linguagem ser manejada, encontramo-nos hoje inseridos na pulverizada comunicação virtual, através das redes sociais e aplicativos, o que também ganha relevo adaptativo nisso que particulariza e afeta o nosso desenvolvimento.


Resta saber se esse mecanismo hipermoderno dos algoritmos contribui para a plasticidade neurológica, à evolução da saúde mental de que tanto se pauta nesses tempos hipermodernos, seja para maior eficácia da aprendizagem, seja para melhor afetividade interpessoal, com melhores recursos simbólicos a fim de nos conhecermos e convivermos mais e melhor.


Por fim, de tudo que se permite falar, outra atividade não menos importante é saber escutar. Numa época cuja ansiedade é a regra comum (quase normativa) da sociedade, escutar parece ser algo extremante sobre-humano. A escuta é imprescíndivel para enriquecer o nosso arcabouço linguístico e que se transforma em conhecimento.


Não é atoa que num espaço psicoterapêutico coordenado por um bom profissional da escuta, o falar ganha outra dimensão no momento em que o paciente se escuta, através das interpelações, ironias, questionamentos socráticos, interpretações, enfim, manifestados pelo profissional.


Porventura, e não menos importante quanto o exercício de se escutar naquilo que foi dito, é a (in)disposição de se descobrir naquilo que se pensou em dizer, ante o silêncio revela/dor.

 
 
 

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