top of page

Transformação

Atualizado: 21 de jun.


Foto: Leonardo Augusto de O. Lopes


Hoje acordei... diante do leve orvalho sobre o meu corpo, purificando-me com suavidade e nostalgia. Em minha alma o ceticismo lírico aromatiza com o perfume de ervas e eucalipto. Anestesia àquela rude irritabilidade de existir. Como pode isso? Não sei! Mas por hora estou acordado.


Como se eu estivesse sempre atado num sonambulismo, perdido em meu sonho, ou, pesadelo, alucinação, delírio... assim o era. Intoxicado pela voracidade mecânica da rotina poluente. Andava sem notar as pegadas de meus passos; falava sem discernir as palavras ditas, algumas malditas; comia sem saborear a textura e o tempero de cada alimento; trabalhava sem questionar o motivo de tamanha subserviência ao Sistema... Mas agora, neste momento, estou acordado. E já não creio mais na imaginária salvação, justo por já ter conquistado a minha própria contemplação, ainda que por hora, neste momento.


Gostaria sim de voltar a ser criança, mas sem cometer os erros da ingenuidade de outrora e sem indagar a inocência perdida.


Apesar de cético e cônscio da própria existência, neste momento posso vislumbrar a nudez de meu coração: involuntário e severo, radical e ao mesmo tempo humilde.


Sou um todo que insiste em significar as coisas, fatiando fatos, até transformá-los num mural de referências ou num diploma de comiseração: “Certifico-me com este documento ter concluído mais um per/curso da Vida, adquirindo nesta arte, o saber para a autenticidade”.


Alguém menos rígido para com as suas verdades, suspendidas ao êxtase da coerência que por hora conflui em todo o meu ser.


Hoje eu acordei. E agradeço aos meus heróis (filósofos e artistas), que insistentemente me confirmaram em suas obras que eu não preciso ser dono das estrelas para admirá-las, assim como não sou dono do planeta, apenas administro o ar que me é ofertado por ele.


Agradeço e admiro a perfeição da natureza que atinge o seu ápice a cada estação proclamada.


Seja na primavera, quando vaidosa e exótica, usa da beleza de suas cores para seduzir os animais à sua volta, exalando o aroma de suas flores reluzentes. Não a deixa de ser exibicionista. Purificada pela simples intenção de agradar.


Seja no verão, a emancipar com intenso calor a luz radiante, voraz. Ainda que ardente, como se quisesse nos lembrar do teor do fogo vivo: energia que emerge no interior do “vazio” inflamável; ar que toma a forma de luz, e que por fim, finda a potência de sua existência retornando à atmosfera que a consome.


O outono que expõe o seu robusto esqueleto: tenaz, mas flexível. Despenca-se com a folhagem de seu seco carpete. O chão último de nosso destino: todos nós perecemos sob o mesmo solo. Perguntem ao pó...


E por último o inverno, que não demonstra pena aos displicentes. Sugere a valentia pela vida, que deve ser conquistada a cada suspiro, glorificada a cada luta, mesmo sem vitórias. E com o devido cuidado de não se perder nas dores lascivas do gelo que arde, após refrescar.


Acordado, estou, mas talvez, por um breve momento.


Insisto em me enganar para não mais sofrer, e, tão logo, sofro por permitir esta blasfêmia em minha narrativa. Neste lúcido discurso que declaro, outro o sucederá, pois a lucidez é momentânea. E esta conduta nada mais faz senão firmar minha alma num contrito gesto de formalidade, tão nobre no seu aspecto exemplar que qualquer perfeição sentiria vergonha de si mesma - devo admitir: a perfeição é o que eu busco. Procuro-a, petulantemente numa descarada hipocrisia lavada com o pudor de minhas convenções.


Atordoado... Eis a satisfação e o mal-estar em ser salvo. Salvando-me de meu sofrimento e de minha culpa...


Estou acordado?


Mesmo sincera, a ideologia é inalienável. Será? Ainda que exclamada com todo vigor, poder-me-ia transformar?


A sessão já vai terminar. Talvez, neste instante, começo a sonhar...


Autor do texto: Leonardo Augusto de O. Lopes

 
 
 

Comentários


Parabéns! Sua mensagem foi recebida.

bottom of page